Dedicatória do blog



Dedico esse blog a memória dos inesquecíveis VICENTE ANTUNES DE OLIVEIRA e Dr. MURILO PAULINO BADARÓ, amigos desta e d'outra vida!!! Ambos estão presentes na varanda da minha memória, compondo a história de minha vida, do meu ser e da minha gênese! Suas vidas são lições de que se beneficiariam, se fossem conhecidas, grandes personalidades e excepcionais estadistas. Enriqueceram o mundo com suas biografias e trouxe ao mundo a certeza que fazer o bem é possível, até mesmo na POLÍTICA!


Dedico também a meu trisavô Firmo de Paula Freire (*1848-1931), um dos maiores servidores da república no vale do Jequitinhonha, grande luminar da pedagogia da esperança!

Nossa Legenda

Nossa Legenda
Nossa Fé e Nosso FUturo

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

FOLCLORE

FOLGUEDOS FOLCLÓRICOS NO JEQUITINHONHA.
2 – DANÇA DE FITAS



A tradição da “Dança de Fitas” ou Pau de Fitas é muito antiga, advinda dos povos arianos, bretões e celtas, em datas que remontam os anos antes de Cristo, que foi trazida ao nosso país pelos portugueses e para a America Latina como um todo, pelos espanhóis. Quase todos os países também a praticam, do México até a Argentina, especialmente nas festividades rurais ou das colheitas. As culturas célticas e gôdas a praticavam com graça e gosto, segundo escritores franceses; e ela ocorre também no Portugal Medieval e nos reinos que compunham a atual Espanha. Motivados pelas fartas colheitas e a fecundidade dos campos, os camponeses se reuniam em festas ruidosas e alegres para externarem sua gratidão aos deuses da colheita e da fartura, cujo mastro central tinha componente simbólico fálico, além de intercalação de homem e mulher para a coreografia principal, que é o trançado de fitas coloridas com um mastro ao centro, enfeitado de flores (com uma guirlanda coroante) e de cujo topo partem fitas multicolores, em números pares e tantas quantas forem os participantes, geralmente  o casal, "lindamente enfeitadas e bem vestidas", segundo assevera um cronista do século XVIII. Os participantes pegam as pontas livres das fitas e executam o bailado cuja coreografia segue o ritmo dos instrumentos musicais, como sanfona, violão e pandeiro. Os dançarinos trançam e destrançam as fitas, de variadas cores, formando interessantes desenhos, quase todos próximos ao xadrez e ao retângulo, pela intercalação das cores e conexão das fitas. No Brasil, a dança faz parte das festividades natalinas, das colheitas e juninas (todas do ciclo das colheitas e nascimento) mas também, é pode ser dedicada às árvores.
Consta sua ocorrência em vários municípios do vale do Jequitinhonha, especialmente em: Turmalina, Minas Novas, Araçuaí, Medina, Itinga, Januária, Janaúba e Montes Claros. Hermes de Paula, o folclorista norte mineiro, dá ela com ocorrência em Montes Claros e nos distritos daquela região sertaneja. Manuel Esteves também dá a sua ocorrência em Grão-Mogol, Cristália e Rio Pardo de Minas desde os primevos tempos. Segundo Luiz da Câmara Cascudo (Dicionário do Folclore Brasileiro, 1972), em alguns lugares do nordeste, “a dança é conhecida como Trançado, Engenho ou Moinho”. Dela dá-nos notícia Manuel Ambrósio, em seu livro “Brasil Interior: Palestras Populares” (Brasiliana – SP, 1934), acerca de sua ocorrência no vale do São Francisco.

Em Turmalina, segundo consta, ocorre desde o século XIX, nas festas religiosas e em todos os ciclos do ano. Num escrito de 1894, Monsenhor João Antônio Pimenta (*1859—†1946), então vigário de Piedade de Minas Novas, dá notícia das festas de Santo Izidoro, padroeiro dos lavradores, “onde dançavam congos, vilão e trança-fitas”. Militão Fernandes d’Andrade, violeiro de talento, foi o chefe desse folguedo até o ano de 1899, provavelmente o ano de sua morte. Entre 1870/1899, era liderada por D. Maria Antônia de Jesus (*1832—†1899), conhecida como dona Maria Caxambú; Francisca Maria de Jesus, Chica Caxambú (mãe da precedente); Rita Cordeiro de Oliveira (esposa de Miguel Cândido de Macedo) e Altina Maria de Castro. Depois, entre 1910-1934, por Bemvinda Lopes de Macedo, Maria do Quintino, Maria Pinheiro de Carvalho, Joana Vieira de Carvalho e outras. No terceiro ciclo, já passou a ser liderada por Sebastião Gomes Ferreira da Trindade, José Teixeira, João Rocha, Carlos Ferreira Pinto e outros mais. O falecimento de alguns deles e a mudança de Sebastião Trindade, deixou o folguedo em letargia, só passando a ser dançado nas festas a partir do meado da década de 1980, reavivado pelos Viana e a turma de seu Antônio da Arlete, num esforço conjunto com estudantes que gostavam de dança e teatro.

Seus versos são rápidos e dinâmicos, acompanhados por sanfona, violão, cavaquinho, prato e reco-reco. A modalidade que é cantada em Turmalina é ramo do tronco nascido no Rio Grande do Sul, com a clássica “Meu Boi Barroso”, dos pampas sulinos e divisantes com o Paraguai. Sua letra mais conhecida é a seguinte:[1]

Eu mandei fazer um laço
Do couro do jacaré
Pra laçar meu boi barroso
No cavalo pangaré


Eu mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga
Pra laçar meu boi barroso
Lá no alto da restinga

Adeus priminha que eu vou-me embora
Não sou daqui, eu sou lá de fora
Meu boi barroso, meu boi pitanga
O teu lugar, ai, é lá na canga

Meu cavalo malacara
Tem andar de saracura
Não tropeça e nem se espanta
Viajando em noite escura

Hoje é dia de rodeio
De churrasco e chimarrão
Venham ver a gauchada
Reunida no galpão


Adeus priminha...

Eu mandei fazer um laço
Do couro do jacaré
Pra laçar meu boi barroso
e meu cavalo pangaré

Eu mandei fazer um laço
Do couro da jacutinga
Pra laçar meu boi barroso
Lá no alto da restinga

Eu mandei fazer um laço
do couro da capivara
Pra laçar meu boi barroso
No cavalo malacara

Eu mandei fazer um laço
Do couro do graxaim
Pra laçar meu boi barroso
Mas só lacei o capim


Adeus priminha...
Tudo isso com versos locais intercalados. Em Santa Catarina, usa-se com freqüência os versos abaixo, segundo consta de uma publicação recente de folclore:


O amor quando nasce
Parece uma flor
É tão delicado
Tão cheio de amor

Seria tão bom
Que ele fosse uma flor
Sem ter espinhos
Da dor

Depois que tudo
É sonho ao luar
Começam os desencantos
O amor passa a existir
Nessa voz do nosso canto...

Como se pode ver, esse folguedo é antigo e pode ser produto da intensa mobilidade humana do brasileiro, cujo comércio humano não conhece distâncias nem fronteiras ao levar suas lendas e suas estórias onde que se estabeleçam.
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[1] Boi Barroso: Tradicionalismo Gaúcho (Adaptação folclórica de Kleiton e Kledyr)



quinta-feira, 11 de julho de 2013

livros no forno e editados


Reedição do livro "Ofertório", com capa
do artista Carlos Konrado, de Aracaju-SE
Editora Brasil Casual



Registro literário

Valdivino Pereira Ferreira

Ainda ressoa nos meios intelectuais o recente lançamento do “Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais”, pela Editora UFMG, autoria da professora Carolina Antunes. Trata-se de assunto complexo embora a autora simplifique o assunto no titulo de seu precioso trabalho. Não se trata apenas de registro do dialeto falado no vale do Jequitinhonha. Registra-se os falares, os folguedos, a cultura local e regional, a religiosidade popular, as festas tradicionais religiosas e profanas, os ditos e sentenças do povo. Enfim, um ementário valioso e de pronta consulta por pesquisadores, literatos e curiosos. A autora cometeu alguns equívocos, comum aos professores que produzem pesquisa a partir de material recolhido por outrem. Cito por exemplo, o verbete “Cabeça da Jibóia”, onde o leitor, na parte em que a autora usa o material recolhido para aboná-lo, deixa transparecer que “Cabeça da Jibóia e Vilão” se referem ao mesmo folguedo. Mas isso é de menos. Talvez tal aconteça pela autora eleger o etimologista Antônio Geraldo da Cunha como a autoridade máxima de seu estudo, ao invés de arrolar outros autores, talvez mais difíceis de serem encontrados nas estantes de qualquer biblioteca, mas indispensáveis num estudo dessa dimensão. Frei Viterbo (*1741†1822), Pedro José da Fonseca com seu “Dicionário português latino” (edição de 1772), as revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838 até os dias atuais), - entre outros, são indispensáveis para quem se embrenha em tarefas dessa magnitude. Maynard Araújo, Melo Moraes (pai), Sílvio Romero, Pereira da Costa, Nelson de Senna, Francisco Badaró (com seu precioso “Fantina”, romance de costumes, 1883), são excelentes repositórios e registradores de costumes, indispensáveis ao pesquisador ou ao esteta que se aventure a rabiscar obras desse jaez. Não os vi alistados na bibliografia consultada pela autora. Lembro por exemplo, que Francisco Badaró (*1860†1921), escreveu interessantes artigos para os jornais de Diamantina, Teófilo Otoni e Montes Claros, versando sobre folclore e costumes. Nelson de Senna, além de livros e opúsculos de sua lavra, deixou inúmeros artigos na “Revista do Arquivo Público Mineiro”.
Notei a falta de vários verbetes que seriam de extrema valia. Vou citar dois. Primeiro: “Purunga”, palavra herdada dos escravos africanos, que designa a cabaça usada para armazenar água. Veio da Bahia colonial, espraiou-se pelo hinterland norte-mineiro no ciclo do ouro e desaguou no século XX. Segundo: “Cabôco”. Cantiga folclórica fixa ou de improviso, com tirada e resposta à quatro vozes distintas – primeira, segunda, contralto e riquinta. Em fila, o primeiro grupo canta a louvação e o segundo grupo também de quatro vozes, responde no mesmo estilo. Manifestação muito antiga surgida da variação da folia, do catira e do “drão” dos rurícolas paulistas, vindas com os bandeirantes paulistas e povoadores do Jequitinhonha ainda no século XVIII. Outra variação do “cabôco” seria o “Quatro”, cantado por quatro pessoas também em quatro. Tão antiga quanto o “cabôco”, pronuncia errônea de caboclo.

Mais o livro cumpre o seu papel principal: difundir o conhecimento e o confronto de idéias. A autora, dona de estilo agradável e ameno, escrita correta e elegante, enleada pelos meandros da pesquisa, cometeu equívocos. Apenas equívocos que não comprometem o livro, mas que devem ser sanados numa possível segunda edição da obra, mesmo porque acreditamos que ela será referência d’agora em diante, aos pesquisadores de história e folclore do Jequitinhonha. Louve-se entretanto o trabalho da autora na hercúlea tarefa de organizar palavras e verbetes, além de remexer velhos baús em busca dos arcaísmos da língua, costumes e da vida da nossa gente. Isso é o que vale, isso é o que fica.



Serviço: “Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais”, Carolina Antunes. Editora da UFMG – Rona Editora, 2013. 271 Pp. Ilustradas, Preço: R$ 65,00.


Qual destes homens é o mais ilustre filho de Turmalina?