"O Passado é o que fica do presente". "FÉ é acreditar naquilo que não se vê. A recompensa disso é ver um dia o que você acredita". Santo Agostinho. "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem". Paulo de Tarso, na Carta aos Hebreus, 11.1 [Or, la foi est une ferme attente des choses qu'on espère, l'évidence de celles qu'on ne voit point] segundo a tradução francesa - La Bible de l'Épée).
Dedicatória do blog
Dedico também a meu trisavô Firmo de Paula Freire (*1848-1931), um dos maiores servidores da república no vale do Jequitinhonha, grande luminar da pedagogia da esperança!
Nossa Legenda
Nossa Fé e Nosso FUturo
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Registro literário
Valdivino Pereira
Ferreira
Ainda
ressoa nos meios intelectuais o recente lançamento do “Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais”,
pela Editora UFMG, autoria da professora Carolina Antunes. Trata-se de assunto
complexo embora a autora simplifique o assunto no titulo de seu precioso
trabalho. Não se trata apenas de registro do dialeto falado no vale do
Jequitinhonha. Registra-se os falares, os folguedos, a cultura local e
regional, a religiosidade popular, as festas tradicionais religiosas e
profanas, os ditos e sentenças do povo. Enfim, um ementário valioso e de pronta
consulta por pesquisadores, literatos e curiosos. A autora cometeu alguns
equívocos, comum aos professores que produzem pesquisa a partir de material
recolhido por outrem. Cito por exemplo, o verbete “Cabeça da Jibóia”, onde o
leitor, na parte em que a autora usa o material recolhido para aboná-lo, deixa
transparecer que “Cabeça da Jibóia e Vilão” se referem ao mesmo folguedo. Mas
isso é de menos. Talvez tal aconteça pela autora eleger o etimologista Antônio
Geraldo da Cunha como a autoridade máxima de seu estudo, ao invés de arrolar
outros autores, talvez mais difíceis de serem encontrados nas estantes de
qualquer biblioteca, mas indispensáveis num estudo dessa dimensão. Frei Viterbo
(*1741†1822), Pedro José da Fonseca com seu “Dicionário português latino” (edição de 1772), as revistas do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838 até os dias atuais), - entre
outros, são indispensáveis para quem se embrenha em tarefas dessa magnitude.
Maynard Araújo, Melo Moraes (pai), Sílvio Romero, Pereira da Costa, Nelson de
Senna, Francisco Badaró (com seu precioso “Fantina”, romance de costumes,
1883), são excelentes repositórios e registradores de costumes, indispensáveis
ao pesquisador ou ao esteta que se aventure a rabiscar obras desse jaez. Não os
vi alistados na bibliografia consultada pela autora. Lembro por exemplo, que
Francisco Badaró (*1860†1921), escreveu interessantes artigos para os jornais
de Diamantina, Teófilo Otoni e Montes Claros, versando sobre folclore e
costumes. Nelson de Senna, além de livros e opúsculos de sua lavra, deixou
inúmeros artigos na “Revista do Arquivo Público Mineiro”.
Notei
a falta de vários verbetes que seriam de extrema valia. Vou citar dois.
Primeiro: “Purunga”, palavra herdada dos escravos africanos, que designa a
cabaça usada para armazenar água. Veio da Bahia colonial, espraiou-se pelo
hinterland norte-mineiro no ciclo do ouro e desaguou no século XX. Segundo:
“Cabôco”. Cantiga folclórica fixa ou de improviso, com tirada e resposta à
quatro vozes distintas – primeira, segunda, contralto e riquinta. Em fila, o
primeiro grupo canta a louvação e o segundo grupo também de quatro vozes,
responde no mesmo estilo. Manifestação muito antiga surgida da variação da
folia, do catira e do “drão” dos rurícolas paulistas, vindas com os
bandeirantes paulistas e povoadores do Jequitinhonha ainda no século XVIII.
Outra variação do “cabôco” seria o “Quatro”, cantado por quatro pessoas também
em quatro. Tão antiga quanto o “cabôco”, pronuncia errônea de caboclo.
Mais
o livro cumpre o seu papel principal: difundir o conhecimento e o confronto de
idéias. A autora, dona de estilo agradável e ameno, escrita correta e elegante,
enleada pelos meandros da pesquisa, cometeu equívocos. Apenas equívocos que não
comprometem o livro, mas que devem ser sanados numa possível segunda edição da
obra, mesmo porque acreditamos que ela será referência d’agora em diante, aos
pesquisadores de história e folclore do Jequitinhonha. Louve-se entretanto o
trabalho da autora na hercúlea tarefa de organizar palavras e verbetes, além de
remexer velhos baús em busca dos arcaísmos da língua, costumes e da vida da
nossa gente. Isso é o que vale, isso é o que fica.
Serviço:
“Dicionário do dialeto rural no Vale do
Jequitinhonha, Minas Gerais”, Carolina Antunes. Editora da UFMG – Rona
Editora, 2013. 271 Pp. Ilustradas, Preço: R$ 65,00.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
UMA EFEMÉRIDE INESQUECÍVEL
Valdivino
Pereira Ferreira
Escritor
e ensaísta
Volto
ao tema do centenário de Vivaldi Moreira, senão o maior, ombreando com os
maiores expoentes do século XX, nascido nas fraldas dessas montanhas gerais.
Homem votado à cultura, fez das letras seu ideal maior; e dos livros seus
melhores e maiores amigos. O advogado Vivaldi Wenceslau Moreira nasceu em 28 de
setembro de 1912, na cidade mineira de Tombos, aquele tempo distrito da cidade
de Carangola. Foi um sacerdote na carreira jurídica, dedicando sua vida à
serviço da causa pública e do Tribunal de Contas de Minas. Desdobrou-se também
na escrita jornalística, tendo encetado brilhante carreira de repórter, redator
e articulista de importantes publicações sediadas no Rio de Janeiro e Belo
Horizonte, entre elas jornais e a “Revista da Associação Comercial de Minas
Gerais”, da qual foi secretário à convite do inolvidável José de Magalhães
Pinto.
Foi
no inicio da década de 1940, que ele transferiu-se definitivamente para a
capital mineira e, durante o governo Milton Campos (1947-1951), foi Chefe de
Gabinete da Secretaria das Finanças, pasta cujo titular era o próprio José de
Magalhães Pinto. Em 1949, Vivaldi
Moreira foi nomeado Auditor do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais. Dez anos depois, foi eleito membro da Academia
Mineira de Letras, com a unção do preclaro intelectual Djalma Andrade, que
então presidia o sodalício acadêmico. Foi um caso de amor entre o imortal e a
casa de Alphonsus de Guimarães, da qual se tornou presidente vitalício desde
1975. Teve carreira brilhante no Tribunal de Contas, sendo que em 1964, foi
elevado a Conselheiro, vindo a ocupar a Presidência da Casa entre os anos de
1967 e 1970 e no ano de 1980. Depois de aposentar-se na Corte de Contas, no ano
de 1982, a pedido de Tancredo Neves, foi nomeado Diretor da Imprensa Oficial do
Estado de Minas Gerais. Ficando ali dois anos.
Porém
foi na Academia Mineira de Letras seu maior legado, a meu ver, construído.
Dotou-a de sede própria, inclusive trazendo para o seio dela o que de melhor
Minas possuía em poetas, escritores, expoentes e homens de grande significado
para o espírito da mineiridade. Acho inclusive que o próprio Vivaldi foi um dos
lídimos representantes da nossa mineiridade, do sentido de “ser” mineiro; de um
escritor nascido da vocação de comunicar, de registrar na memorialística um
período rico e importante para todos os montanheses.
Sua
devoção aos livros foi proverbial. Isso quem nos conta é seu amigo Sr. Adão,
que o acompanhava diariamente na faina de limpá-los, esmerilá-los com a camisa
imaculadamente branca. Certo dia, ao remexer livros e estantes, estas desabaram
em cima dele, causando imenso barulho na Biblioteca Acadêmica. Seu Adão veio
logo acudir, tirando livros e livros de cima do octogenário Vivaldi. Este, após
socorrido, levanta-se limpando a poeira, vira-se para Adão e diz – entre solene
e humorado:
—
Que morte linda não teria sido, ‘Dão” – junto de todos os meus amigos!
E
continuou abrindo livros e limpando-os, remexendo estantes e jornais, opúsculos
e discursos, pois o rio da sua vida ali nascia e ali mesmo desaguava. Tudo isso
ante o espanto e o susto de seu Adão.
Decorridos doze anos de sua partida, pois
faleceu aos 88 anos, em 2002, ainda a luz da sua vocação continua iluminando os
salões do “Palacete Borges da Costa”, e a presença espiritual do seu exemplo
acalentando a Cultura de Minas, eterna em nós enquanto vivemos. Os dezessete livros
de sua autoria publicados servem-nos de pasto alimentar e espiritual, razão
pela qual a Casa de Alphonsus de Guimarães é também de hoje para sempre a “Casa
de Vivaldi Moreira”.
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